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América Cupello

Souvenir da baleia
01 de agosto 2021

Jaz solene e inerte, alterando a paisagem costeira. Encravada entre a areia e o mar, sua sombra perde-se na tarde enevoada e triste.  Torna-se invisível também a alma, como a sombra, desfacelada no ar azedo dos peixes.  Mas isso foi depois, quando tudo acabou.

Primeiro pensei em ir até lá e fotografar.  Não é todo dia que encontramos uma baleia jubarte encalhada na praia.  Depois, um pouco depois, tentei esquecer. Abrir mil janelas, mil links na internet. Tantos, que a tela do computador tornou-se preta, de repente. Escura, de repente.  Como se um pintor tivesse usado todas as cores, então veio o preto. O preto como excesso e não como falta. E esse obscurecimento me fez lembrar do corpo enorme, outra vez.  Havia tempo para ir, as mensagens no celular diziam que o animal iria demorar para morrer.  A potência do trágico em nós.

 O que me atraiu até a praia para ver a baleia?  Uma fotografia digna de um concurso, eu pensei.  Que concurso seria digno daquela fotografia lenta?  Apesar da chuva, apesar de tudo, vesti meu casaco e peguei minha câmera, pois algo me incitava àquela cena. Mas por ironia, por destino, não fiz a foto, por isso resolvi escrever.

Como esquecer a dança funesta da baleia encalhada? Expulsa do mar e refém da terra.  Aprisionada em sua majestade, em seu colosso. Seu coração viajante pulsava sonoridades inaudíveis; uma canção ancestral que remete a um conhecimento antes do mundo. Segundo as palavras do professor e filósofo Claudio Ulpiano[1]: “A nossa alma é isso: um fundo sombrio. Os murmúrios do povo, as orações dos crentes, os volteios das ondas, o barulho das estrelas, os gritos das moléculas – isso é o fundo da nossa alma!” E do fundo sombrio, quase barroco, o corpo do cetáceo projetou-se entre a areia e o mar, e por isso, não foram bem sucedidas as selfies, que tentavam enquadrar nas ínfimas telas dos smartphones, os esgares que saltavam de um espelho turvo e incompreensível, espelho que mirava à própria palavra foto-grafia. Foram inúteis, as tentativas para fotografar a baleia, em meio ao fazer e desfazer das ondas, e a coloração cinza chumbo do mar que envolvia a praia. Algo teimava em resistir, além da extinção. E, esta imagem inapreensível, do enorme mamífero flutuando sobre a paisagem marinha, por um momento, me fez recordar das fabulações com baleias presentes na obra da pintora Julia Debasse, (em sua exposição)[2]: “Esta é a hora dos monstros”.

E o que dizer de nós, humanos, que fazemos do monstruoso, do imenso, um ínfimo receptáculo de óleo medicinal para os ossos.  Consumidores vorazes de tudo: da baleia, das formigas fritas em óleo, dos unguentos e pomadas de peixes elétricos. Lembro-me que na pequena lata do óleo de baleia lê-se: “que este retém a dor dos ossos”. Nossos ossos.  A dor da baleia vive na dor de nossos ossos. A baleia é a nossa história aumentada, vista através de uma lente de aumento ao contrário.  É a história do grande, do invejável, da maior de todas – Mobi Dick! 

Quando cheguei ao local, a praia estava cheia de curiosos.  Chegaram os bombeiros e a guarda costeira. Articularam-se estratégias de salvamento.  Os pescadores se aglomeravam. Algumas senhoras de preto conferiram dignidade àquela tarde manchada por um sangue escuro, turvo e salgado.

Água e sal.  Sal e água.

Já experimentou beber a água do mar?  Verde e densa está água pode nos fazer mal. É a água da vida.  Por tanto tempo zumbis de nós mesmos, clones de uma humanidade que faz sapatos para os cães usarem de bom grado, estamos num impasse.  Choramos um choro insalubre, que fere a terra.  Assim como a baleia, estamos encalhados com nosso corpo, nosso barco no meio de uma relva em flor. Pausa. Revejo meu livro preferido, e a fotografia de Ralph Eugene Meatyard[3] a personagem e o barco, ambos detidos na relva. Retenho essa ideia: barco-relva, para um futuro tableau fotográfico.

A morte, que espreita, nem sempre é visível.  Existe um enorme trabalho de silêncio. De ínfimos seres, de células que vão parando aos poucos e aos milhares.  O obturador de minha câmera trava, pois eu faria da foto uma cena em preto e branco.  Tudo estava certo, o filtro, a luz, mas havia aquela trava que me impedia de fotografar.  Assim como acontece nos piores pesadelos:  a nudez imprevista, o interdito.   Dentro do instante: o silêncio pensante de uma fotografia.  Estava lá, entre a vida e a morte. Não para ser fotografado.  Como poderia dizer que vi?  Por isso resolvi escrever. 

Muitos fotografaram com seus smartphones, apesar da baleia ser espessa demais para ser captada em meio a filtros, efeitos de sons e luzes tão instagramáveis. Havia um nó, um obstáculo.  Uma pequena formação de pedras impedia o corpo da baleia de rolar. E ela, então, propagava soberana sua dor    como um sonar que emitia notas mudas. Notas que não ouvimos, mas que nos ferem. Gritos surdos que seguimos -  sem saber -  com olhos úmidos.   

A presença da baleia modificou todo o ambiente, elevou a maré, fez com que a temperatura sofresse uma queda inexplicável. E, pode ser, que em algum momento ela faça surgir com a fricção de seu enorme corpo na areia, um novo ser marinho, um outro vírus mortal.   Mas, uma pequena prece, de senhoras com terço, a pretexto da baleia, fez um céu azulado emergir das nuvens, e um bem-te-vi passar.  Um sentimento aéreo, de ponta cabeça, uma vertigem junto ao mar cor de chumbo em Camboinhas. Praia que recebeu esse nome por causa de um outro encalhe, a do navio Camboinhas. Mas, naquela tarde de agosto, a praia vestia uma denominação ligada à fonética sopradora das baleias. O nome emanava de esguichos aquosos, da memória de sua pele escura e brilhante.  Algumas crianças, que brincavam na água repetiam, enquanto se molhavam, elas repetiam para nós, os adultos, - o apelido. Mas logo percebi que não poderia pronunciar o nome, porque se fosse proferido, ele iria desfazer-se prontamente.  Havia sido criado – o vocábulo -  com o alfabeto oscilante e diáfano das águas.

Era uma jubarte, jovem talvez, uma das poucas de sua linhagem e veio parar aqui para nos lembrar que a natureza também erra. A natureza não erradica seus erros.  Errar para a natureza é como tecer fios sempre mais potentes, sempre mais complexos, sem almejar a perfeição.  Porque a perfeição foi cogitada para nós – os fazedores de óleos de baleias.  E se existe algo que não podemos compreender totalmente, este algo é o infortúnio de um colosso.  Por que a baleia errou seu caminho e veio parar aqui?  Poderia estar a caminho de Abrolhos, ter sua cria, voltar a Antártida e completar seu ciclo de vida.  Mas, por um fio de nada, uma onda do mar mais quente, ela chegou perto demais.  Talvez amanhã não nos lembremos mais...Talvez esse texto seja apenas um pequeno souvenir da baleia.

Misturada à temperatura da água, insólita, uma brisa enevoada de morte revestiu o oceano crespo e frio de agosto. Uma luz lúgubre cintilava na melancólica cena em Camboinhas. E no fundo de tudo, no fundo da força que move nossos dedos, na eminência da força que nos faz puxar a corda, soubemos que a baleia precisava errar.  Naquele momento, naquele dia. Uma enorme resposta do universo.  Um pedido e uma resposta.  Jogaram-se cartas demais, búzios demais, Iching demais.  Um pedido e uma resposta, E lá estava ela: enorme, inerte, morta.   Contudo, errar para a natureza não é uma fatalidade, nem a palavra final.  Errar -  para a natureza -  pode ser um grande aprendizado

 

Referências bibliográficas.            

 

[1] Claudio Ulpiano, trecho de aula. Fundo Sombrio. Caravaggio e o Barroco.  https://www.facebook.com/165794486809224/posts/364013213666698/

 

[2] Julia Debasse, exposição “Esta é a hora dos monstros”:   http://www.portasvilaseca.com.br/br/julia-debasse-apresenta-esta-e-a-hora-dos-monstros/

 

[3] Ver foto, sem título de Ralph Eugene Meatyard : https://www.mocp.org/detail.php?type=related&kv=2717&t=objects