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Letícia Dutra

É uma artista nascida em Duque de Caxias e criada no ambiente multicultural da internet. Graduanda do instituto de artes da UERJ, utiliza-se principalmente da fotografia e da palavra escrita para desenvolver sua pesquisa que, atualmente, envolve o silêncio e as relações entre os espaços íntimos e públicos.
 

SOBRE LINGUAGENS, ESCRITAS, TEIAS E ABERTURAS
25 de setembro 2023

questões de escrita e linguagem sempre me interessaram bastante, talvez por eu ter sido uma leitora assídua desde nova. lia histórias e criava muitas outras delas na minha cabeça. adorava descobrir palavras nova e usá-las à exaustão. e ainda gosto. então, aqui vai mais uma palavra para o meu repertório: ensaio. ensaio me parece algo que vem antes da coisa principal acontecer. parece ser o lugar em que a gente dispõe os elementos de forma diferente até tudo se encaixar de forma harmônica. parece o lugar em que a gente se permite errar, dar risada disso e tentar de novo. ou ficar frustrada e tentar de novo. melhor errar no ensaio que na grande apresentação, no palco, na frente de todo mundo. mas será que na vida temos ensaio? será que tudo é um grande palco principal? ou será tudo um grande ensaio, onde não temos outra opção a não ser errar e tentar de novo? eu não conheço ensaio como formato de texto. nunca escrevi um, nunca nem li um. meu cérebro perfeccionista quer parar de escrever agora, pesquisar à exaustão o que é um ensaio, que formato e elementos deve ter, pra me certificar de que não vou errar, mas eu me recuso a fazer isso. dessa vez, eu escolho e acolho a possibilidade de estar errada. eu conheço ensaio na música. primeiro cada pessoa passa sua parte, depois a gente passa a música em conjunto. às vezes fica bom, às vezes não. às vezes os astros se alinham e as pessoas se conectam de forma tão profunda que parecem estar lendo a mente umas das outras. e é desse tipo de ensaio que eu gosto. é esse tipo de ensaio que eu espero que esse seja. um ensaio sinérgico.

 

qual a diferença entre escrita e linguagem? qual desses engloba o outro e/ou onde estão os limites entre eles? esses limites existem?
penso que talvez a linguagem seja a performance: 


é fluida, está constantemente em estado de gerúndio. 
é o ato.

o ato de bordar
ou de pintar
ou de escolher um enquadramento para uma fotografia
ou de escrever

 

ou tudo isso ou nada disso.

a escrita, por sua vez, seria o registro dessa performance: 


um pequeno recorte do passado sendo representado no agora

o bordado
a pintura
a fotografia
o texto

 

ou tudo isso ou nada disso.
 

mas será que existe uma linearidade nesse processo? ou a linguagem e a escrita estão constantemente alimentando e informando uma à outra? para além disso, qual a importância das duas para nós? como seres humanos, como animais que coabitam esse planeta, como artistas? muitas eras atrás, dentro de nossas cavernas, precisamos entender porque haviam luzes no céu, porque podemos comer de umas frutas e outras não e como matar para nos alimentar, nos aquecer e sobreviver. será que hoje ainda estamos em busca de compreender o mundo para sobreviver? será que a linguagem é só para dar conta de lidar com o outro ou para dar conta dos turbilhões dentro de nós? será que a linguagem é um meio de lidar com o mundo fora da caverna ou adentrar cada vez mais a escuridão das paredes de pedra em nosso interior?

 

há cerca de dez anos, eu comecei a ouvir uma banda chamada the 1975. são quatro caras britânicos que fazem música pop que tem diversas influências de outros estilos musicais, de livros, poesias, cinema etc. em 2018, a banda lançou um álbum chamado a brief inquiry into online relationships que mistura músicas que passeiam por muitos estilos diferentes, mas de alguma forma fazem muito sentido na unidade do álbum. 
a oitava faixa desse álbum se chama “i like america & america likes me”. tem uma sonoridade herdada do hip hop/trap, guiada por batidas eletrônicas, vocal principal muito carregado com modificações de autotune. a letra é difusa, como se nenhum pensamento se completasse, parecendo seguir um fluxo de pensamento. 
interpretada na maioria das vezes com uma entonação que me remete à desorientação e desespero, essa música me parece muito visceral. como um pedido de socorro acompanhado de um sorriso, uma descida íngreme à desesperança de uma pessoa que continua dizendo que está tudo bem quando claramente não está. 
é uma crítica à sociedade estadunidense vestida de música pop com sintetizadores e sob os holofotes.
destaco aqui duas frases dessa música que mais me afetam, pela forma como elas parecem sintetizar toda a angústia que o eu-lírico está vivendo. 

 

                                                                                i’m scared of dying
é a frase de abertura da música, repetida algumas vezes ao longo da canção e, dentre outras referências, está diretamente ligada com a segunda frase em destaque:

 

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