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Pedro Caetano Eboli

O TEMPO POR PROLIFERAÇÃO: algumas notas sobre Peões, de Eduardo Coutinho
22 de agosto 2021

Os peões são a alma do xadrez e de sua boa ou má colocação depende muitas vezes o resultado de uma partida

François-André Philidor

Sabemos que, em suas Teses Sobre o Conceito de História, Walter Benjamin fez uma crítica à compreensão de que o passado seria algo fixo e imutável. Nessa ocasião, o autor reclama ao historiador o “dom de despertar no passado as centelhas da esperança". Cada presente, ao incidir sobre o passado, teria a capacidade de ativar novos horizontes de ação, liberando uma multiplicidade de germes de futuro que se encontram em estado de latência. Não existiria nada como um passado em si, mas é sempre desde um ponto de vista específico que o presente lança suas luzes sobre aquilo que ocorreu. Afinal, qualquer modelo de uma temporalidade sem resto guarda terríveis implicações políticas: sobre um passado sempre igual a si mesmo não se poderia projetar nada além de um futuro sem fissura, onde apenas os vencedores teriam vez e voz. Nos restaria, segundo Benjamin, a atividade de ouvir “nas vozes que escutamos, ecos de vozes que emudeceram”.

Peões (2004), dirigido por Eduardo Coutinho, parece profundamente imbuído deste fino exercício de escuta, tão frequente em seu trabalho como documentarista. O filme, realizado no último trimestre de 2002, é composto por entrevistas com alguns dos metalúrgicos que atuaram nas enormes greves do ABC Paulista. Iniciadas em 1979, elas constituíram o primeiro movimento de massas após o longo silêncio imposto pela Ditadura Militar. Mas a escuta de Eduardo Coutinho não se oferece aos líderes sindicais mais proeminentes, aqueles que acabaram seguindo carreira política e ficariam para a história. O diretor se interessa especialmente por aquelas personagens que ficaram nas margens da história, como se tivesse por objetivo contá-la pelo ponto de vista dos vencidos, ecoando o apelo feito por Benjamin. Embora relatem o impacto do movimento sindical sobre suas vidas singulares, estas pessoas não se limitam a narrar e reconstituir este momento. Elas também comentam sobre os caminhos que suas vidas trilharam desde então, seus novos contratos de trabalho, sua aposentadoria e suas novas aspirações. Vemos alguns dos objetos pessoais que remontam às greves, somos expostos a algumas das mazelas e recompensas do antigo trabalho nas fábricas, bem como aos impactos da militância política em seus círculos familiares.

Estas personagens também nos oferecem visões particulares sobre o futuro no Brasil, àquela altura marcado pela proximidade das eleições presidenciais em que Lula - principal líder sindical nas Greves do ABC - figurava como forte candidato. As eleições não eram algo colateral aos relatos dos entrevistados, elas forneciam toda uma atmosfera, um solo temporal que visibilizava as narrativas do passado à luz daquele presente. Deste modo, as Greves do ABC, ocorridas no passado, eram observadas sob a ótica daquele presente, em que um de seus principais líderes poderia ser eleito presidente do Brasil. Assim, o filme não se limita a documentar um acontecimento do passado que se ofereceria a um olhar atemporal - como faz boa parte dos documentários -, mas de observar este momento sob a égide de um presente específico, o tempo entendido enquanto diferença. Aqui, o ofício documental e histórico passa menos pela tarefa de restituir algo passado, e mais pela necessidade política de revolver, desde seu presente, aquilo que o curso do tempo havia enterrado. Por meio de uma operação quase arqueológica - que apenas olha para o passado para interrogar o presente -, Coutinho fissura as narrativas maiores, reencenando o passado como frescor do novo.

Peões é um daqueles raros momentos em que as categorias sociais existem apenas para vacilar. Aqui, cada personagem e trajetória de vida singular cintila em todo seu brilho de coisa particular, mas sem que esta luminosidade ofusque as finas gradações de luz e sombra que matizam a passagem entre o singular e o comum. Contudo, se há sempre uma diferença, um resto, que as categorias sociais são incapazes de determinar, todo movimento em direção ao particular não caminha rumo ao pitoresco ou ao exemplar, na figura de um herói que mudaria os rumos da história. Aqui reside uma das forças políticas de Eduardo Coutinho, que devolve aos atores sociais o motor de toda ação política coletiva. Em todo caso, o filme certamente não se presta a questionar a importância de Lula, em uma operação iconoclasta, parecendo mais interessado em deslocar o olhar, de modo similar à escrita de uma história a contrapelo concebida por Walter Benjamin.

A figura deste líder sindical aparece apenas como um espectro, uma espécie de fantasma: ele representava a iminente realização de um devir que não teve um único começo, mas foi originado de um emaranhado múltiplo de forças e atores. Assim, Coutinho acaba por restituir ao curso da história um caráter contingencial, encharcado de outros possíveis irrealizados. Nesta profunda movência da história, o tempo finalmente desliza sobre si mesmo, já incapaz de ser reduzido a uma síntese total. Mas é justamente na fricção entre as diversas camadas inconclusas de tempo que a política pode irromper, deflagrada como multiplicação. Peões não reúne, afinal, um conjunto de entrevistas para compor uma totalidade coesa, segundo o ímpeto de oferecer uma outra história que contestaria a validade de um passado que está dado.

Ele tem como foco a dispersão, a multiplicação do passado, que infiltra narrativas menores na grande meada da história, em um exercício de remontagem e rearticulação. No filme, o próprio diretor explicita seu interesse por “lembranças dos participantes da grave, e preferencialmente os anônimos, os que não ficaram conhecidos”, em uma operação que ativa a escuta àquelas personagens situadas às margens das narrativas hegemônicas. Neste sentido, o método empregado por Coutinho - dado a ver no próprio filme - é sintomático: ele reúne grupos de ex-metalúrgicos, pedindo-os que identifiquem as personagens que se encontravam nas bordas das imagens de arquivo, em torno daqueles que discursavam. Estas figuras, situadas nas bordas, seriam os principais entrevistados do filme. Afinal, era bem provável que, caso o diretor ouvisse as personagens que ocupavam o centro da imagem, a história seria novamente escrita como repetição, sem insinuar qualquer tipo de diferença.

No longa-metragem, Coutinho remonta a uma série de documentários filmados durante o próprio movimento grevista, tais como ABC da Greve (Leon Hirszman, 1979/1990), Greve! (João Batista de Andrade, 1979) e Linha de Montagem (Renato Tapajós, 1979). Mas é curioso o modo como o diretor desloca uma certa dicotomia que poderia haver entre um filme feito no calor do momento, que retrata um movimento em curso, e um filme sobre o passado. Ao contrário destes três filmes, que mostram personagens em ação e poderiam servir como aliados na tarefa de contar a história de uma luta, os horizontes insurgentes de Peões não residem apenas no conteúdo militante de suas imagens, mas especialmente em insinuar a necessidade incessante da imaginação política.

Destaco que o próprio trabalho fabril que vigorava durante as greves dariam lugar à mecanização, terceirização e subcontratação da força de trabalho nos anos 1990. Deste modo, o filme foi feito em um momento em que os modelos de trabalho e, consequentemente, os próprios horizontes de mobilização política que levaram Lula à presidência, já estavam em plena crise. Assim, é como se o filme articulasse uma sobreposição de tempos, em que a coroação de um certo modelo político coincidisse com a própria impossibilidade de repetí-lo. Contudo, ao contrário do ímpeto de enlutar estas formas de mobilização política, Coutinho parece sinalizar para a necessidade de sua incessante metamorfose, destacando aquilo que há de contingente, indeterminado e improvisado no movimento da história. Se o tempo não caminha rumo a uma vitória triunfante ou um lugar ideal, o combate deve ser imanente, em revolver por dentro as forças que nos impedem de imaginar futuros outros.

Uma diferença de pouco mais de duas décadas separa o documentário das greves e, por sua vez, pouco menos de duas décadas separam o filme do nosso presente. Curiosamente, nosso presente guarda algumas similaridades com o início dos anos 2000 que serviu de presente para o filme de Coutinho. Uma delas é a eleição de Lula, que volta a se anunciar em 2022. Alguns a vêem como o horizonte de um futuro desejável, outros como um modo de evitar a repetição de uma tragédia. Mas em que sentidos esta eleição difere da primeira? Que germes de futuro esta eleição não mais encarna? Que Brasil deixou de existir nesta passagem? Mas para além disso, nosso presente também consolida uma profunda mudança nos modelos de trabalho, em que os paradigmas de flexibilização e de individualização aprofundam muito daquilo que já se vivia no começo dos anos 2000. Tendo isto em vista, que lideranças e modos de ação coletiva poderiam emergir daí?

Em todo caso, se Peões pode nos oferecer quaisquer lampejos para interrogar o tempo presente, o filme não nos municia de instruções ou modelos de batalha a serem empregados. Coutinho parece mais preocupado em aguçar nossa lida com o presente, em nos prover instrumentos para compreender o mundo, ao afirmar a mutabilidade incessante de toda perspectiva de luta. Neste sentido, se há qualquer horizonte de otimismo passível de emergir do documentário, ele não repousa sobre a ideia de que existe um futuro mais desejável à nossa espera. Se o presente, em toda sua irredutibilidade, é composto por múltiplos feixes de tempo, basta saber dar espaço para que proliferem os germes de ação, tornando possível sua infiltração futura por baixo do tecido social.

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Peões, Eduardo Coutinho, filme colorido, 84 min., 2004.