carloz azambuja em p&b.jpg

Carlos Azambuja

É bacharel em Design pela ESDI (1980), Mestre em Design (PUC-Rio, 1998) e Doutor em Comunicação e Cultura (ECO-UFRJ, 2003), e, desde 2001, Professor da Escola de Belas Artes da UFRJ, aonde atualmente coordena o programa de pós-graduação em Artes Visuais (PPGAV/EBA/UFRJ) e o grupo de pesquisa IMAGINATA, atuando na linha de Imagem e Cultura; e também N.I.M. - Núcleo da Imagem em Movimento.

 

Andando em Círculos, ou sobre o fascínio das espirais
01 de agosto 2021

img1.jpg

Andando em Círculos • Rotacionado o Centro da Via Láctea © Carlos Azambuja – Jul 2021.

É possível que a memória se torne fonte de novas potências para uns ou produza apenas sentimentos dos quais não conseguimos nos livrar: Sânsara, Karma, o Eterno Retorno…

 

Certo é que uma memória efetiva e histórica poderia talvez impedir que se percorram os mesmos caminhos e os mesmos erros. Assim, ela seria de uma efetividade libertadora que também serviria para expor e nos denunciar esta nossa prisão, mas há uma ilusão que nasce do movimento de ascensão destes círculos cujos ciclos podem ser cada vez maiores e por isso mesmo dão, de tempos em tempos, a sensação de uma uma superação definitiva de certas condições, o que dá num Mito, uma mentira…

 

Mas alguns círculos mais longos de maior duração vão permitir uma mudança efetiva neste script? A aparência da estabilidade e ascenção de dez anos atrás no Brasil deu lugar ao retorno

– e aquele ciclo durou menos do que parecia poder durar. Àquela altura não se imaginava ser possível uma democracia virar pó nas narinas de um político candidato a presidente, nem se vilumbrava o golpe do Grande Irmão do Norte ungido pelo oleo negro presente nos nossos mares. Mas já ali se sabia (ou não se queria saber) que os personagens continuavam os mesmos

 

desde as capitanias hereditárias. Por exemplo, o neto do patriarca da Independência – José Bonifácio de Andrada Neto – foi líder da ARENA no Congresso durante a segunda Ditadura Militar (a primeira aconteceu o golpe da República).

 

Aboliu-se a Escravatura, mas preservou-se o racismo, o quarto de empregada e o elevador de serviço; criou-se um estatuto dos jovens e adolescentes, mas continuou o sistemático morticídio dos jovens pobres e negros das periferias; forjou-se uma Constituição Cidadã que entretanto afirma que o cão de guarda do Estado – as Forças Armadas – devem “por iniciativa de quaisquer dos Poderes, garantir a lei e a ordem.”; criaram-se as formas de incentivo à cultura mas incendiou-se o Museu Nacional e agora a Cinemateca Brasileira, enquanto o mecenato do mercado financeiro parece se interessar simplesmente pelo retorno de mídia de suas eventuais parcerias.

 

Tivemos de dar mais uma volta no círculo para atentar que certos personagens familiares continuam os mesmos como os Collor, os Barbalho, os Sarney, os ACM, etc.etc.., que, para como foi contra Goulart, adote-se um “parlamenterismo”garantindo que o poder não volte às mãos da esquerda. E ficamos nós aqui esperando Godot (Lula sozinho não merece carregar este fardo) ou pelos menos uma nova volta mais longa que permita o surgimento de novos personagens e de um novo e diferente leque de contradições. Lembrando sempre com Trotsky que toda a revolução parece impossível até que se torne inevitável.

img2.jpg

Andando em Círculos • Rotacionado o Centro da Via Láctea © Carlos Azambuja – Jul 2021.