Rayssa V. Correa

Rayssa Veríssimo

Curadora, crítica e pesquisadora em formação no IART-UERJ. É editora executiva da revista acadêmica Concinnitas; bolsista de extensão do projeto A crítica, coordenado por Alexandre Sá, quem a orienta no projeto de iniciação científica A pesquisa em Artes Visuais nas revistas acadêmicas, do qual é pesquisadora voluntária. 

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QUANDO O FOGO SE APAGA
07 de setembro 2021

Fotografia de George Magaraia - Monumento a D. Pedro I do Brasil, praça Tiradentes, centro

Fotografia de George Magaraia - Monumento a D. Pedro I do Brasil, Praça Tiradentes, Centro histórico da cidade do Rio de Janeiro, Estado do Rio de Janeiro, Brasil. Fonte: acervo pessoal do fotógrafo. Contato: https://georgemagaraia.com.br/

Em 1862, na praça Tiradentes (RJ), marco do juramento da Constituição Imperial, erigiu-se a escultura equestre de D. Pedro I, construída em bronze por Louis Rochet e projetada por João Maximiano no contexto de um concurso da Escola Imperial de Belas Artes. Proposta por Dom Pedro II e recebida de Paris, com grande cortejo e discursos sobre o triunfo do Monarca para marcar a Independência do país, o primeiro monumento público brasileiro teve como símbolos os rios Amazonas, Madeira, São Francisco e Paraná, representados por animais e indígenas alegorizados. Enquanto Dom Pedro I está em posição imponente, com gestos a simular a proclamação; os maiores rios do país são representados por indígenas, sempre associados a animais, em alusão a um primitivismo. Além de contar com a inscrição “A Dom Pedro Primeiro, gratidão dos brasileiros”, o monumento também grava datas marcantes do Imperador, como casamentos e feitos políticos.

Fotografia de George Magaraia, detalhe da representação de Dom Pedro I
Fotografia de George Magaraia, detalhe da representação do Rio Amazonas

Fotografia de George Magaraia, detalhe da representação do Rio Amazonas

Fotografia de George Magaraia, detalhe da representação de Dom Pedro I

Proposto pelo sucessor do protagonista representado, esse monumento ergue uma ficção brasileira que celebra o mérito de um herói, criando um mito originário que apaga seus outros participantes e reforça a ideia de progresso em uma relação civilizado/primitivo. Enquanto o indígena é uma prosopopeia, o “civilizado” é a sinédoque do evento. Como afirma Souza, “ao se citar e retomar essas versões da Independência, silencia-se sobre várias questões candentes do início do século XIX. (...) Não se fala das movimentações nas praças públicas ou dos diversos significados da emancipação”. (2000, n.p.) Explicando sobre a Independência, a autora explicita interesses políticos e financeiros luso-brasileiros durante esse evento, assim como a participação de diversos outros agentes, desmascarando o símbolo individual construído e evidenciando as marcas de poder presentes na construção da memória desse acontecimento, o que será debatido por Achille Mbembe.

Para o intelectual camaronês, essa presença é considerada um prolongamento irremediável da dominação que dociliza os corpos através do imaginário, sendo uma extensão do terror que insiste em impor o projeto colonial. Em O que fazer com as estátuas e os monumentos coloniais?, o passado é extemporâneo, carregando suas forças para além de si e sendo sustentado por símbolos que operam no fictício. Nesse sentido, a história colonial não está encerrada e, mais do que nos contando a História, ela continua nos fustigando, assombrando nosso imaginário e disputando as narrativas através de simbologias, tornando necessário discutir sobre métodos para combatê-las. Sendo a iconoclastia a solução mais discutida, Mbembe propõe um deslocamento que ressignifique estátuas e monumentos coloniais em um parque-museu que discuta e eduque sobre suas marcas, sendo permitida apenas a construção de novos espaços educativos que nutram outras ficções. Também escapando da iconoclastia, porém igualmente da sepultura de Mbembe, Diambe da Silva disputa a narrativa da escultura equestre de D. Pedro I.

Pedro I, Praça Tiradentes, 2020 (do conjunto Devolta) Coleção da artista_

Pedro I, Praça Tiradentes, 2020 (do conjunto Devolta) . Coleção da artista.

Enfrentando a memória hegemônica construída por monumentos e a sua violência não narrada, Diambe criou o conjunto Devolta, que teve início com a escultura equestre de Dom Pedro I, em 2020. Ao contrário da individualidade evocada por esse monumento, a artista convidou suas comparsas para a realização de um ritual de insurreição que, assim como em outras situações instauradas pelo conjunto Devolta [1], consiste em uma emboscada de fogo. A ação dura cerca de trinta minutos, mas seu início e fim são mais longos que a combustão: para a sua realização, a artista pesquisa possíveis rotas de fuga, observa o horário de ronda policial, estuda a legislação, carrega consigo respaldos jurídicos e a camisa “não serei bixa presa por causa de Arte” e o seu fim acontece apenas quando há certeza de que as participantes chegaram em casa com segurança.

A coreografia aconteceu com Ventura Profana ao fundo, rasgando e dispondo as roupas em torno da escultura, que após seriam molhadas com líquido inflamável, simultaneamente, por uma pessoa vestida de branco e outra de preto. Neste instante de revolta, ocorre uma força coletiva que se contrapõe ao triunfo individual do monumento da praça Tiradentes. Enquanto este celebra o mito de uma glória, Devolta reergue a coletividade e torna possível resgatarmos a inscrita suposta gratidão brasileira. Se a memória é uma ficção, então a artista tenciona a narrativa fixada em bronze e, com a força das suas comparsas, cria uma coreografia que permite sua múltipla reprodução e antecipa, na sociedade, o debate contemporâneo sobre patrimônio de esculturas públicas.

Assim, Diambe entra no caloroso debate sobre iconoclastia escapando das soluções dicotômicas. Sem destruir ou deslocar, a artista opera o monumento dentro da sua essência e da potência da Arte: o simbólico. Se o monumento anacrônico da praça Tiradentes ganha vitalidade no imaginário, então Diambe o golpeia no seu ponto de força, ambos disputando a memória coletiva. Como afirma Pollyana Quintella (2020), “não era sobre destruir o monumento, mas intoxicá-lo com a fumaça preta, dar-lhe um chamado, acrescentar-lhe um novo episódio histórico. Dom Pedro foi brevemente sequestrado, embora ainda protegido pela polícia”. Entretanto, a brevidade desse sequestro poderia criar um questionamento naqueles que desejam as cinzas do Imperador.

Quando o fogo se apaga e o Imperador ressurge, fica a amargura da irresolução deixada pela mesma potência do simbólico, mas como disse Rancière (2008, p.73), “não se trata (..) de saber se ela [a ação simbólica] é uma saída bem-sucedida da solidão artística em direção à realidade das relações de poder, mas sim que forças ela dá à ação coletiva contra as forças da dominação que toma como alvo”. Refletindo, o filósofo francês nega a noção de realidade, compreendendo que ela é um tecido sensível, também uma construção fictícia, o que liberta a Arte dos desejosos de um continuum sensível que se transforme em compreensão do mundo ou em vontade de mudá-lo.

 

Devolta, apesar de desobrigada a fazer a sublimação do monumento por operar na mesma via fictícia da realidade, também cura essa amargura quando expõe a frase “não serei bixa presa por causa de Arte”, demonstrando outras preocupações da artista que se sobrepõem ao clamor daqueles que desejam ser salvos pela Arte. Assim, a coreografia de Diambe opera no fictício da memória, golpeando o mito da Independência; mas também no fictício da realidade, ao prevenir seu corpo já policiado de outras prisões. Entretanto, a sentença que a artista dá à Arte não se limita à frase, ela é reforçada na linguagem escolhida para realizar a emboscada.

Ao optar pela coreografia, a artista instiga diversos tipos de independência. A primeira é a nossa liberdade da narrativa hegemônica, bem como a da suposta gratidão brasileira entalhada sobre o bronze; a segunda é uma autonomia das próprias definições das linguagens artísticas. Ao contrário do comum em Arte, Devolta se libertou das classificações de série e performance que, para a artista, implicam em uma relação de desempenho e, apesar do conjunto poder ser lido no campo ampliado de outras linguagens, Diambe escolheu estrategicamente a coreografia. Esta opera junto com a sentença exposta em sua camisa: ao entrar em conformidade com a lei, a própria artista está livre, mas Devolta não opera sozinha: quando Diambe se liberta, os artistas também se libertam, assim como a possibilidade de uma outra simbologia da independência brasileira. Para o bronze que permanece, resta a força simbólica do fogo de Diambe que estimula novas danças para esses marcos de celebração.

 

[1] João, Isabel e Atlântica, do conjunto Devolta, podem atualmente ser vistos no Pivô Satélite, IMS Paulista, Museu de Arte do Rio e Galpão Fortes D'Aloia e Gabriel.

 

 

Referências:

DIAS, Vera. Monumento a Pedro I na Praça Tiradentes. As histórias dos monumentos do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 03, mar. 2013. Disponível em: http://ashistoriasdosmonumentosdorio.blogspot.com/2013/03/monumento-pedro-i-na-praca-tiradentes.html. Acesso em 21 maio 2021.

MBEMBE, Achille. O que fazer com as estátuas e os monumentos coloniais?. Revista Rosa. [S.I.], v.2, n.2, nov. 2020. Disponível em: https://revistarosa.com/2/o-que-fazer-com-as-estatuas-e-os-monumentos-coloniais. Acesso em: 21 maio 2021.

QUINTELLA, Pollyana. Dom Pedro I sitiado: contrausos para a primeira escultura pública do Brasil. Revista A Palavra Solta. Rio de Janeiro, 14 set. 2020. Disponível em: https://www.revistaapalavrasolta.com/post/dom-pedro-i-sitiado-contrausos-para-a-primeira-escultura-p%C3%BAblica-do-brasil. Acesso em: 25 maio 2021.

RANCIÈRE, Jacques. Paradoxos da arte política. In: O espectador emancipado. São Paulo: Martins Fontes, 2012 [2008], pp. 51-81.

SOUZA, Iara Lis C. A Independência do Brasil (descobrindo o Brasil). Rio de Janeiro: Zahar, 2000. Disponível em: https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=PXLTDwAAQBAJ&oi=fnd&pg=PT2&dq=independencia+do+brasil+mitos&ots=4_258ZY4_o&sig=ue214dhsxko6HliAd6MESYtxSxg#v=onepage&q=independencia%20do%20brasil%20mitos&f=false. Acesso em: 21 maio 2021.