EXPOSIÇÃO

Nós
Jaques Faing
Por Alexandre Sá

“Já está escrito, já está previsto
Por todas as videntes, pelas cartomantes
Tá tudo nas cartas, em todas as estrelas
No jogo dos búzios e nas profecias
Cai o rei de espadas
Cai o rei de ouros
Cai o rei de paus
Cai, não fica nada.”

Ivan Lins e Vitor Martins
 

 

Não conheço Jaques Faing. Como talvez não conheça a mim nem a tantes outres. Talvez tenha sido por sua obra que pude olhar-me a mim de maneira ainda mais verticalizada. Encontrei o artista rapidamente em uma exposição recente em que fui curador. Trocamos umas poucas palavras e números de contato. Enviamos algumas mensagens e agendamos um encontro pelo Zoom. 

Conectando... A imagem em transmissão se abre para que nos desconheçamos. Algum duplo. Espelho em zoom. Olho o artista como se um extrato, talvez romântico, do que pode ser a síntese da produção. Como aquela tal borra de café que sobrevive ao tempo no fundo sem fundo da xícara. Um artista que em algum momento escolhe em sua vida, dedicar-se ao fazer, manejando e fotografando aquilo que pode, quando o caos do mundo permite. A conversa continua. Nos desconhecemos e nos reconhecemos. Talvez atravessados por alguma melancolia, compreendemos a dificuldade de sobreviver.

Olho seu site. Vejo algumas propostas diversas e nutridas por uma inquietação legítima. Ele me diz que já teve uma carreira de fotógrafo de moda que abdicou em algum momento por diversos motivos. Conversamos sobre nós. Uma série me chama atenção de maneira avassaladora. Um vórtex. Sou dragado. As palavras somem lentamente e as imagens retumbantes não param de se proclamar.

Trata-se de Plataformas Vazias, fotografias de dimensões variadas, realizadas entre 2007 e 2010. Captura de enorme solidão objetual de carros alegóricos de desfiles de escolas de samba em momentos variados, mas que em geral, anunciam seu fracasso e cansaço. Como uma radiografia, tropeçamos no esqueleto estrutural que só sobra quando oco. Ou em uma leitura dupla, como quando anuncia a vitória vindoura da festa que inevitavelmente, também acabará. As imagens parecem registrar alguma terra devastada que paradoxalmente é nutrida por algum desejo de futuro, abrindo um tempo suspenso, como um espaço em trânsito consideravelmente melancólico em que passado e futuro não nos cabem mais.

Por certo, uma das primeiras camadas possíveis e mais diretas de leitura se daria pelo adiamento do carnaval em 2021 e seu cancelamento em 2020. Mas isso é insuficiente. Tais imagens além traduzirem um Brasil sucateado pela covid-19, pelas políticas públicas e pelo atual governo federal, tange algo mais denso e libertador: a possibilidade de vazio. Mas não o vazio que acontece como acaso e insuficiência simbólica. 

Se é possível considerar, com todo o cuidado possível que, apesar do carnaval, um dos nossos mitos fundadores, ser o epíteto de alguma utópica democracia por sua diversidade e possibilidade de participação pública, é praticamente incontornável lembrar que tais plataformas, quando em uso, guardam algo de potência fálica que marca o estreito lugar nas alturas daqueles que, pelas mais diversas razões, se destacam do conjunto. Apesar das mais variadas possibilidades de abordagem, o carro alegórico é, mesmo que historicamente nutrido pela ironia, um espaço de poder. Aqui, o poder (das imagens de si) está desocupado. 

Ou mais especificamente, o trabalho registra metaforicamente o exercício enlutado e urgente que só assim, será capaz de operar um reviramento nas estruturas discursivas, inclusive na esfera da arte em seus diversos eixos. O lugar desocupado é mantido como signo, resistência, resiliência e anticolonialidade. Um emblema atmosférico da possível e necessária falta de desejo de reocupá-lo, pelo menos naquele instante, provavelmente por sua arquitetura decrépita, mas também, espera-se, por saber, no fundo de suas ficções micropolíticas que trata-se em última instância, de um local que traduz de forma inconteste, o mais profundo e íntimo desejo que habita em cada um de nós. 
 

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